Como perder o medo de dançar (e virei quem sou hoje)
Tem um tempo em que eu só aparecia em foto ou vídeo já dançando — nunca dando dica, nunca falando da minha experiência. Perder o medo de dançar em público não veio de motivação, veio de repetição. Aqui está exatamente como funcionou, na ordem em que aconteceu comigo.
1. Comecei me gravando pra ninguém ver
Comecei respondendo mensagens de amigos e família com vídeo em vez de texto — só pra criar o hábito de me assistir. Grave vídeos só pra você, assista várias vezes, e se dê ao direito de odiar todos no começo. Depois grave mais, até gostar de alguns. Selecione os melhores e mostre pros amigos mais próximos. A frequência vira hábito, e o que antes incomodava vira estímulo.
2. Fui dançar em local aberto
O teórico da dança Rudolf Laban ensina que dançar em espaço aberto é como “dançar pra se aparecer”: mesmo com gente assistindo de longe, você foca em dançar bem, e nesse processo já vira uma atração pra um público espontâneo — é como um ensaio pro palco. Comecei fazendo isso sozinho, mas notei que com mais gente do lado era muito melhor. Pra quem tá começando, conviver com artistas seguros ajuda a construir a própria segurança com o tempo.
3. Passei a postar conteúdo, não só resultado
Você só precisa focar no que sabe e no que vive. Todo mundo tem algo pra contar — até quem acha que não tem. Fracasso em projeto, tombo, erro de linguagem: tudo é conteúdo. Conte sua história, os erros de gravação, os ensaios, o que você vive de verdade na dança. A essa altura, o que importa não é ser perfeccionista, é mostrar que você é uma pessoa normal.
4. Aproximei de quem já tinha o que eu queria
Perto de você sempre tem alguém que não tem o medo que você tem — a pergunta é por que você ainda não se aproximou dessa pessoa. Eu aprendi a dar aula de dança andando com quem sabia dar aula, a fazer projeto com quem sabia fazer projeto, a falar em público com quem sabia falar em público. Os melhores mentores da vida real são os que te levam pro próximo nível — aproxime-se deles.
Por que quase todo mundo trava antes mesmo de tentar
O medo de dançar em público raramente é sobre dança. É sobre ser visto errando na frente de alguém. A maioria das pessoas nunca chega a testar se sabe dançar ou não — trava antes, só de imaginar o julgamento alheio. Foi assim comigo por anos: eu dançava bem sozinho e travava completamente diante de qualquer câmera ligada ou plateia real.
O que muda quando você entende que ninguém está prestando tanta atenção assim
Uma das descobertas que mais me ajudou foi perceber que as pessoas estão ocupadas demais pensando nelas mesmas pra reparar tanto assim no seu erro. O julgamento que você imagina é sempre maior do que o julgamento real. Isso não tira o desconforto — mas tira o peso de achar que todo mundo está esperando você falhar.
O papel da repetição, não da motivação
Motivação vem e vai; repetição constrói. Foi repetindo o hábito de se gravar, de dançar em espaço aberto, de postar processo em vez de resultado perfeito, que o medo foi ficando cada vez menor — não porque ele sumiu de vez, mas porque a repetição criou uma prova concreta de que dava pra continuar mesmo com ele presente.
Perder o medo de dançar não é sobre nunca mais sentir medo
Ninguém perde o medo de dançar de verdade — aprende a dançar apesar dele. Até hoje, antes de qualquer apresentação grande, ainda sinto o frio na barriga. A diferença é que hoje ele não me trava mais: virou parte do processo, não um obstáculo que impede o processo de começar.
Erros que atrasam quem está tentando perder o medo de dançar
O primeiro erro é esperar sentir coragem antes de agir — a coragem quase sempre vem depois da ação, não antes dela. O segundo erro é comparar o próprio início com o resultado já pronto de outra pessoa, esquecendo que todo mundo que hoje parece seguro também gravou vídeo ruim, errou passo em público e quase desistiu no meio do caminho.
O terceiro erro é tentar pular direto pra apresentação grande sem passar pelas etapas pequenas — gravar sozinho, dançar em espaço aberto, postar processo — que preparam o corpo e a cabeça pro palco de verdade.
Como a Usualdance leva esse processo pra dentro da comunidade
Um dos motivos de existir uma comunidade dentro da Usualdance é justamente esse: ninguém precisa passar sozinho pelo processo de perder o medo de dançar. Ter gente ao redor que já passou pelo mesmo travamento — e superou — encurta o caminho de quem está começando agora. É a mesma lógica do quarto passo deste artigo: se aproximar de quem já tem o que você quer, como conta a trajetória de Ticko Bboy na Usualdance.
O primeiro passo continua sendo o mais difícil
De todos os passos deste caminho, o primeiro vídeo — aquele que só você vai ver — continua sendo o mais difícil de dar. Não porque seja tecnicamente complicado, mas porque é o momento em que você precisa se ver de fora pela primeira vez, sem filtro e sem desculpa. Depois desse primeiro vídeo, cada repetição seguinte fica mais fácil, porque perder o medo de dançar deixa de ser hipótese e vira experiência concreta que você já sabe que consegue atravessar.
Se esse caminho serviu pra mim, pode servir pra você também. Comece pelo primeiro vídeo — o que só você vai ver.
Artigo escrito por
Fundador da Usualdance
Empreendedor e Dançarino há mais de 25 anos, Bacharel em Educação Física e MBA em Dança, Gestão & Produção Cultural pela Faculdade INSPIRAR. Levou sua trajetória a palcos no Brasil, Portugal, Equador, França e Argentina — com uma carreira consolidada, Ticko segue trabalhando com empresas, artistas e eventos por todo Brasil.

